A tua fome...

 Não arranques as maçãs do paraíso emprestado. Empresta ao paraíso fechado a tua fome. A tua fome tem nome, tem arte. Já não é a serpente que mente mas a tua fome nela presente. A tua fome não é faminta, não devora como as feras. A tua fome vem das quimeras e das Eras. A tua fome não é de carne crua e nem cheira a sangue. A tua fome é distante, não é directa e imediatamente comestível. É algo que se saboreia. A tua fome amadureceu o fruto que se fez oferta de primavera florida. Há a primavera para nosso deleite e não há nisso pecado. E se há pecado já se lhe faz chegar o perdão nos canteiros coloridos, que surgem como telas, pinturas, que se ofertam em bouquets de namorados. Ou então há um amontoado de flores sem vaidade, sem cuidado, ao sabor do acaso, nem dão conta do que são ou para que servem. São levadas com o vento e o lamento de nada lhes serve. São flores sem amores, só lhes querem bem enquanto estão à vista, enquanto a  natureza não as torna dispersas e distantes.          A tua fome sempre foi a escolha mais doce com intenções a nobre acidez. Nela pões o deleite que vai além do doce mel que se obtem de generoso fruto.       A tua fome é agridoce          A tua fome é de esperas e vem das Eras e quimeras.    

De: Rosa Maria Levy Varela Benrós         

De: Rosa Maria Levy Varela Benrós 


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