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A mostrar mensagens de agosto, 2023

Sou do fado, sou da morna

Sou do fado, sou da morna. Sou da longa estrada que se fez mar mas também do caminho de terra batida para lá chegar. Venho de longe como todos nós, só não tenho a pretensão de me fazer perto, a ignorar o longo passado que corre nas veias, as brincadeiras infantis no espaço aberto e largo das ruas, de todas as ruas, de todos os lugares. Por onde passamos trepamos as árvores para colher as mangas maduras, as frutas e frutos dos novos lugares, apoderarmo-nos do gosto estrangeiro delas, sem mesmo pedir autorização. A guiar-nos, a descoberta de novas delicias, por pomares  nunca antes apetecidos. Alteramos o gosto desses novos paladares mesmo antes de os saborearmos, com a pressa que pomos em tudo, talvez porque um dia de nós tiveram pressa. Um longo caminho percorrido para provar do fruto desconhecido e o certificado que diz desvalidas. A ciência apressou-se e não deu espaço que se saboreasse os novos frutos das árvores trepadas, em todas as ruas, cheias do sabor a liberdade  e no...

Manhãs

 Como eu quero acordar com o entusiasmo das manhãs. E ao mesmo tempo com o pudor. É o sol que ainda não é pleno, mas  deixa vestígios. É o som da chuva que, pela manhã, é sempre miudinha, cautelosa, envergonhada. As manhãs timidas e tambem plenas de energia, de límpidos pulmões, têm de permanecer um tempo no silêncio dos arbustos, no cheiro da terra que se revela no meio desses silêncios, nos pássaros que soltam a voz ainda cheios de reservas, como que a ensaiar a cantoria que se faz ouvir em plena manhã. O galo já cantou bem alto e o som do seu canto surge forte, pleno e solitário. Ainda outros sons não chegaram para abafar o seu som campesino que está atento aos primeiros raios timidos do sol. A natureza vai-se revelando por completo, no sol maduro e quente ou na chuva grossa e sonante. No cacarejar incessante das galinhas, no cantar desinibido dos pássaros, no riacho cristalino, dourado pelo sol e pela vida que o leva a correr sem parar, a dizer da sua pureza e frescura nos...

Pilula

A pílula deu sexo sem bebé e inseminação artificial deu bebé sem sexo. Já passou o sexo livre e agora é o bebé de qualquer jeito, porque a pílula deixou a mulher estéril e o sexo livre deixou a mulher velha e sem vontade de ser mãe. Bem vindos ao grande mercado mundial das vontades, outrora o mercado das liberdades. Leve uma ninhada e pague um somente. Se quiser doar é a pagar. Tem cardápio para escolher a melhor carne. É sentar e esperar. Quem não tem paciência, quem não tem dinheiro engula uma pílula.          Autoria : Rosa Maria

Eden

 em frente à casa havia um jardim. Todos os jardins são de um eden que se revela na alma. Os jardins de dia produzem risos, crianças felizes, flores bem regadas, bem ordenadas, animais soltos e amigáveis entre si, muito sol, sim porque só se vai aos jardins em dias de sol. À noite os jardins reflectem sombras de um outro mundo, de um eden mais misterioso e sombrio, até ouvimos, se estivermos atentos à imaginação que emerge nessa escuridão folhosa, de árvores imponentes em seus grossos troncos, a voz Divina que passeia vigilante e rodeia os bancos, onde namorados se deliciam a quebrar vergonhas, escondidas entre as mil folhas carregadas da sombra nocturna que parece proteger os amantes dos olhares indiscretos e curiosos. O Divino passa também como uma sombra que protege, que abençoa, que perfuma a noite naquele lugar de perfumes naturais, que se soltam, que se entregam, que se Divinizam quando põem ternura na noite, um ar sereno que nos transporta para o Eden esquecido na bruma dos ...

Agua pura

 Queda de agua  em meu corpo,  Sinto a frescura em meu rosto e não penso  Sinto o sabor em meus labios e nao penso  Sinto o teu som cristalino e não penso  Olho-te a jorrar com a força da tua frescura, o desejo no teu sabor, a vida no som farto e puro e sou eu a pensar Sinto e penso como posso atravessar a espada no teu corpo que se entrega, se deixa atravessar sem resistir, sem se queixar, a continuar sempre a ser água que qualquer corpo pode atravessar, suave como a flor ou  rude como a espada...  A agua doce e cristalina guarda-se pura, transparente e cristalina para o seu encontro com o mar, cristalino, puro, salgado, profundo Rosa Maria Levy Varela Benrós  14-8-2023

Vagalume

Quando o dia é escuro e sem esperança  O vagalume traz-me as estrelas para perto de mim e o tornado da zanga fica proximo da  natureza que sofre   E como um passaro canto a dor em melodias de cor esperança  A esperança que traz-me o vagalume que é estrela guia em noite escura  De: Rosa Maria Levy Varela Benrós

Tudo é dúbio

 Tudo é dúbio quando o amor sobe as bainhas de todas as necessidades. Tudo é dúbio quando as faculdades moram num pedaço de pão que se repete a cada dia. Tudo é dúbio quando o eu necessário e absoluto se reflecte no espelho das vaidades vestidas de lua.        Autoria : Rosa Maria (Rosa Levy). 2020/21

A Paz que se deseja

 Que venha a paz em forma de paz, sem simbolos ou simbologia, sem estes artifícios ou outros enganos. Que a paz não seja enganosa, não seja comprada, não seja um vão desejo. Que a paz seja notícia por ser boa e não por ser rara, por ser amada e não coisa banalizada, sem interesse. Que a paz esteja em cada casa solenemente e em cada esquina com a mesma solenidade. Que a paz não seja apenas tréguas, feridas saradas, mágoas esquecidas.  Que o motivo principal para um acordo de paz, seja a paz.                            Rosa Maria

Terra amada

 Que hajam árvores enquanto eu respirar. Que haja mar enquanto eu viver. Se o espaço falhar e deixarem as estrelas de brilhar, que haja dia e a estrela sol no horizonte a despontar, a unica verdadeiramente necessaria e bela. Que haja noite com o seu luar. Não exijo um espaço imenso. Não exijo outro chão, outro planeta, outras estrelas. Quero esta felicidade imensa de ouvir um pássaro a cantar, o sabor da água do mar e o cheiro das árvores, do tronco, da terra molhada. Haja sol e mais nada. Se o resto é preciso!? Que seja! Mas que seja sem perturbar. Que durma o seu sono infinito. Mudo aqui, ainda que desperto lá a mover montanhas dentro de outros, com suas árvores ou não, com seus mares ou não. Com suas vidas longínquas e infinitas. O infinito é este finito de seres a pulular o universo infinitamente.  De: Rosa Maria Benrós 

Ar e mar

 Mar  Ar que para mim não existe  Mas persiste o meu querer  Porque mar é de outro fôlego, de outro lar  Espuma branca, meu corpo a libertar do ranço fetido das coisas secas, quentes, que respiro sem saber  Mar de outro ar, de outro estar  De um estar dinâmico sem o esforço da minha vontade, de frescura sem que eu peça essa ternura, de ar que é maresia, dia e sol, do ar que se distribui por homens e peixes em equilibrio e harmonia  Mar que é alma, entrega, parente, amigo  Mar que respiro sem respirar  Mar completo, para peixes e homens Para os homens a fantasia, a maresia, a frescura, a felicidade que cabe em um dia  Para os peixes o lar unico, refugio, batalha  De: Rosa Maria 

Planetas

 Os planetas são laboratorios para quimicos enlouquecidos, medicos empenhados, biologos esperançosos  Os planetas são vida para otimistas, paraiso para utopistas,  Os planetas são planetas para animais, homens comuns.  vida em abundância, silencios noturnos, farrapos de vida.  Fogo de vida e morte, marés vivas, águas paradas, nascentes que nascem sempre e sempre seguem até o seu destino final.   Planetas são corpos suspensos, com vidas em suspensão.  Ebulição e  quietude, fogo, larva e pedra. Suspensos os planetas, giram sem parar, para que o minuto final não seja o derradeiro, porque há um planeta que gira, ainda que pedra vazia  De: Rosa Maria  22-08-2023

Solidão

 Há duas espécies de pessoas actualmente, as que vivem mergulhadas na solidão e as que vivem permanentemente a fugir da solidão. Tanto umas como as outras estão rodeadas de gente, embora em diferentes interacções. Um terceiro grupo se aproxima da solução. Regressar ao modo de vida de um tempo em que ninguém vivia o dilema. O tempo de vida plena nas aldeias e nos bairros típicos citadinos. Vida esforçada, sem dinheiro, sem meios, de andar descalço, passar fome, rachar lenha, buscar a água à fonte. No tempo em que o meio urbano acontecia nos bairros, pobres, dentro de espaços exíguos, refúgio no alcool para todas as mágoas, repressão social, repressão famíliar, repressão laboral, falta de oportunidades. Mas não havia solidão. Nos campos que trabalhava-se lado a lado, todos se conheciam. Os homens, depois do trabalho,   encontravam-se para beberem, rirem de coisas sórdidas e ao mesmo tempo insignificantes, como não podia deixar de ser, porque eram as coisas sórdidas que dita...

Obsequio

 No tempo em que o obséquio era levado a sério, as ruas da capital deste nosso Portugal faziam do fino trato algo que não se deve ostentar devido a um imenso pudor. A começar pela palavra obséquio, tão invulgar palavra faz adivinhar todo o seu pudor, que não se vulgariza num descarado e simples por favor! Obsequio é mais por gentileza. Obsequiava-se no quotidiano, sem ostentação. No tempo do obséquio nas ruas perpendiculares às ruas principais de Lisboa, mais discretas, sem o burburinho que gera o grande comércio, a vida acontecia em toda a sua plenitude   Nessas ruas havia uma padaria, uma mercearia, uma drogaria, uma igrejinha e ainda umas escadinhas de pedra tosca e irregular. Os padeiros, por obséquio, não faziam alarde do seu cansaço no preparo do pão durante as madrugadas, pois logo pela manhã abriam as portas com um sorriso franco no rosto e a tagarelice ingénua nos lábios e na alma, quando as calçadas ainda cheiravam a lavado, borrifadas pela humidade da noite ou ...

Absurdo

 Absurdo é carregar o andor. matar a flor abençoada e abençoar a morta imagem. Enche-la de flores e causar dores no corpo de quem suporta a pesada carga. Mas toda a realidade é absurda. Há sempre nela um andor inútil, porém sagrado. Há sempre nela uma flor viva,  naturalmente abençoada, arrancada da terra abundante para ser humilhada e consagrada às coisas inúteis. A pesada carga são castelos e palácios vazios onde ninguém habita apesar de tanta flor viva, sem jardim, que necessita. A pesada carga são túmulos gigantes e faraonicos que guardam esqueletos  obsoletos, e as flores vivas e sagradas que carregaram as pedras tumulares nem são lembradas nem são choradas. Absurda a vida que é eterna para as coisas vazias, sem vida e sem alma onde pomos toda a esperança e damos toda a importância e efémera para nós os seres  vivos, humildes flores atiradas aos pés da suprema miragem, a que exige uma inútil servidão, a vida plena, total, grande e não pequena.    ...

Luar

 Estou cheia do teu luar. Quem me dera o teu sol. Os teus raios de luz, a tua boca de sangue, a tua pele tingida, teus olhos brilhantes. Tudo o que o sol pôs em tua imagem eu quero. Um dia de fogo, um dia de luz. O teu luar me consome. Torna a minha tez pálida, dá-me fantasmas de noite e cinzas ao meu redor. Não me tragas o luar, ainda que queiras dançar uma dança de lua em que eu fique nua só para te agradar. Já amei tudo em minha vida de forma intensa e em tudo vi graça e beleza. No luar tambem vi graça e beleza até que a sua luz emprestada deixou-me gélida na solidão das madrugadas. Uma luz que não tem chama, que não aquece. Não me dês só a madrugada dos teus dias, dá-me também as manhãs de sol, os banhos de luz que dão cor aos teus dias e põem um arco íris no Céu dos meus desejos...                                             Autoria: Rosa Maria

Segredos

 Não guardei as horas de solidão. As horas de solidão revelam-se nos segredos contados, antes de se tornarem desertos frios e abandonados. Os segredos que despontam nos muros velhos dos bairros castiços de uma Lisboa imperturbável, nos seus caminhos de cidade antiga. Os muros velhos que se tornaram morada de plantas, de ervas daninhas. Sob elas raízes profundas que se entrelaçam na cumplicidade das risadas que ali se ouviam, em tempos de outros costumes. Passei por lá já fora de mão e só achei solidão, como os pássaros que vi à procura dos antigos moradores, de quando o bairro era mais castiço e novo. Hoje penso que os pássaros  ao vêr-me, como quem ali está sem propósito, procuram adivinhar meus segredos. Os pensamentos cheios de profundas raízes, sob plantas que crescem em velhos muros e se entrelaçam com a vida que foi e não será mais, na expectativa do que voltará a ser...  Os pássaros chegam,  olham para todos os lados como que à procura dos velhos hábitos, do t...

Raízes

 As folhas caem sonolentas sobre o colo da terra, logo após os frutos, pesados,  ruidosos, apressados ou rejeitados com brusquidão, pelos ramos da árvore, aliviada do peso que a fez vergar. A terra não reclama de nada, recebe sempre, de braços abertos, as folhas que poisam suaves sobre ela e os frutos mais pesados. A terra é antiga como as trisavós. As raízes escondidas em nós, na robustez que se fez árvore, na fragilidade das folhas, na energia dos frutos. As folhas que caem sonolentas sobre o colo da terra são sempre belas, são sempre suaves, são sempre dádivas da árvore, dos frutos, das frondosas raízes.                                                                Rosa Maria

Sereia

A sereia tem vontades por preencher,  Do mar o sal,  Da terra o ar. Nas veias pulsa um sangue que ninguem quer provar...  Na longa cauda aquariana e nupcial, mulher submersa, imovel, a aguardar uma vontade que já não é dela  Na imensidão do mar o canto de sereia que vinga sua desolação,  Quem inventou a sereia foi o homem, em noite de lua cheia De: Rosa Maria Levy Varela Benrós

Oasis

 Pena os ciganos não terem um oásis no deserto das suas vidas negligenciadas, preteridas, que pudessem chamar pátria minha. Pena que os seus clássicos algozes não possam vêr isso. Roídos de inveja tentariam invadir o pequeno oásis, para de novo pôr o deserto em suas vidas... Pena quando empurramos todos os nómadas desta vida para desertos sem oásis. Pena quando fazemos birras e não queremos vestir preto, por dizermos que é sinal de impureza e que vestir prada e branco é o que convém no altar dos puros. O trato seguro, a evitar ostentar a má lingua, a poupar milhões, é comprar nas bancas manchadas de negro...                        Autoria : Rosa Maria (Rosa Levy). 21 de Janeiro de 2021

Estrelas

 Prefiro o cheiro das flores  O meu cheiro é de dores  De canteiro  Prefiro a largueza do campo e as luzes de um pirilampo  A minha luz é artificial e cabe entre quatro paredes  Venho cá fora e cintilam estrelas no distante firmamento  E logo penso como hei-de alcançar as estrelas distantes, enquanto um pirilampo cintila perto com a sua luz maravilhosa cor de marte  Entro em casa, comigo a brisa e o cheiro das flores que permanecem em mim  Os pirilampos iluminam a noite e são as estrelas aqui tão perto, verdes como os habitantes de marte   Oiço um barulho lá fora e a luz extinguida dos pirilampos diz-me que a noite escura guarda assassinos  Olho de novo as estrelas que cintilam muito no vasto firmamento e já não desejei alcança-las para que o brilho de uma noite estrelada não se perca na curiosidade humana  Prefiro o cheiro das flores que buscam o vento que espalha e não recolhe  De: Rosa Maria Levy Varela Benrós

Mar

 O mar suporta os barcos rasgando-lhe as vestes mas vem ter comigo a sorrir, a deixar-me a alma leve. Nao suspeito seu sangue quotidiano, arena da sobrevivência. O mar nao diz do seu sofrimento diário. O mar só quer ver-me sorrir e deixar-me a alma leve. O mar nao chora a sua dor. Quando olho o mar sinto o amor que ele me devolve, e como é grande esse amor o meu coraçao se enche de felicidade. Por vezes o mar ataca e mata e nos arrasta para o abismo. E então eu sei que o mar se revolta com a dor causada por homens sem coração e por baleias famintas, sanguinárias.                                                     Autoria:  Rosa Maria

Respeito

 Tenho em mim a lembrança da escola. Não comecei por respeitar professores e colegas, sem antes passar por todo um ritual mais abrangente, de entrega a este novo estatuto  de estudante. A primeira lição, o respeito. O respeito pela escola, pelo seu saber, pelos professores, colegas, funcionários. Ao entrar havia o pesado portão, mas nada de sombrio havia nele. Era um portão antigo, severo, pintado de verde, com marcas do tempo, porém sem qualquer desleixo. Por ele haviam entrado gerações com a sua timidez inicial, o respeito pelo seu aspecto imponente, a sentir aquele desconforto na barriga. Por ele entraram livros a perfumar espaços, entraram esses guardiões da sabedoria, muito cientes do seu papel e cheios de expectativas, projectadas nos alunos, que também entravam expectantes, quanto ao conteúdo dos livros e quanto aos professores. Entraram burocratas de um funcionalismo público, muitas vezes obsoleto. Entraram contínuas fardadas a rigor,  entrou a figura do director,...

A tua fome...

 Não arranques as maçãs do paraíso emprestado. Empresta ao paraíso fechado a tua fome. A tua fome tem nome, tem arte. Já não é a serpente que mente mas a tua fome nela presente. A tua fome não é faminta, não devora como as feras. A tua fome vem das quimeras e das Eras. A tua fome não é de carne crua e nem cheira a sangue. A tua fome é distante, não é directa e imediatamente comestível. É algo que se saboreia. A tua fome amadureceu o fruto que se fez oferta de primavera florida. Há a primavera para nosso deleite e não há nisso pecado. E se há pecado já se lhe faz chegar o perdão nos canteiros coloridos, que surgem como telas, pinturas, que se ofertam em bouquets de namorados. Ou então há um amontoado de flores sem vaidade, sem cuidado, ao sabor do acaso, nem dão conta do que são ou para que servem. São levadas com o vento e o lamento de nada lhes serve. São flores sem amores, só lhes querem bem enquanto estão à vista, enquanto a  natureza não as torna dispersas e distantes....

Diversidade

A diversidade dos passaros chega a pesar-me na alma eu que não sou passaro e pertenço a uma especie com poucas especies entre si, sinto o incomodo territorial das coisas apertadas, calo vozes, suprimo nomes, para que só uma voz permaneça, só um nome fique. Eramos tantas e tantas vozes num só povo, falas diversas que se perderam ao som da espada que corta, enquanto um passaro canta de espanto na funda floresta O passaro disputa o ramo, o alimento, a agua,  mas espalha na floresta a diversidade dos seus canticos, das suas penas, do seu voo. Homens e mulheres caminham na monotonia dos dias, cheios do silêncio do outro, das suas vozes caladas ao fio da espada, dos seus nomes desaparecidos na penumbra das batalhas sangrentas. Na monotonia dos passos iguais, das vozes identicas, no som das palavras quando chamam os filhos e ficou na penumbra dos avós esquecidos outras lembranças, outros nomes perdidos. Agora somos todos iguais, a desejar espaços, alimentos e agua. Tanto espaço, alimento,...

Marte

 Marte de outros olhos sem ilusão, de outros amores sem amor. Marte tardio, do frio sem arrepio, do calor sem procura da sombra da árvore que amadurece os frutos da nossa vontade. Marte que abriga outra maldade que não esta de trincar o fruto inocente, do pecado de causar dor a uma vida que vem de outro ventre diferente. Marte que não sente as marés geniosas a querer despedaçar os rochedos do seu destino. Marte sem sal, insípido. Paraíso dos hipertensos, dos anoreticos, dos diabéticos, dos psicopatas sem empatia. Marte, esse deus da guerra que escondeu seus carros de combate e seus soldados. Marte, que alegria porque tem vida, um micróbio em agonia por não saber perfurar a pele macia de um bebé terreno, que sorri feliz. Em Marte não há cólicas.                                                              Rosa Maria