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A mostrar mensagens de setembro, 2023

Infinito

Infinito antes das aguas formadas em nascentes      Depois do mar remanescente                          Infinito antes de Adão,  Infinito depois de Eva lapidada por seu desejo finito, de contornos precisos, limitados por lados, formas                          Infinito antes de Dalila a moldar Sansão no seu querer finito                            Infinito a contrariar todas as finitas vontades de finalizar                        Infinito na ideia de  permanecer sem finalizar um                         Infinito o universo na inconcebivel forma de lhe atribuir um finito que, inevitavelmente é uma porta para o infinito que está depois da forma qu...

As almas

 O pó das almas vem depois da morte. Primeiro a morte física e irrepetível. Na casa abandonada entra, inevitavelmente, pó. O corpo largado ao acaso, aberto ao pó publico e sujo. O pó do abandono. Entregue à terra bichenta, entregue ao fogo cruel, entregue à água sufocante. Pó, lixo que é varrido. Como é possível dizer-se que o que conta é a alma e não o corpo! Os banhos que tomamos dizem que não! Damos banho aos corpos e abandonamos as almas. Perfumamos os corpos e viramos as costas às almas. Andamos seduzidos pelos corpos e ansiosos pelo toque mágico e prazeroso de um corpo. As almas incomodam. Quando sentimos a presença delas arranjamos uma benzedeira para que desapareçam. Que voltem à casa poeirenta de onde saíram. Não gostamos que nos façam companhia. Dizemos que queremos que encontrem a luz para não mais incomodarem. Quando estão junto a Deus não incomodam. Dá-se um banho de água benta para limpar. E manda-se de novo para o pó terreno ou cósmico. Lixo, inevitavelmente pó. Os a...

Aquem marte

 A viagem já foi além  Marte e foi também aquém marte. Aquém Marte em Vénus a queimar. O calor infernal da Deusa, beleza forjada em ardente fornalha. Além Marte a desembarcar longe da estrela que nos rege, que da via láctea se fez rei, coroa dourada e ceptro fornalha, em seu corpo brilhante de luz, amarelo, dourado, vermelho sangue. Longe da via única que nos conduz, mas não a única que nos seduz, Marte ficou para trás como velho amigo, mas nunca de sua intimidade soubemos e de Vénus só o que inventamos em delírios de deuses e deusas da  perfeição, à nossa régia medida. Vénus permaneceu Deusa, inacessível,  longínqua e temerária. Queremos desvendar outra via, diferente desta que mal conhecemos, que de fugida a ela nos apresentamos. Outra via, outras elipses, outros Sois, outros planetas e outras leis,  universais, unas, contínuas, surdas e mudas aos nossos vãos apelos porque, como aqui na via láctea, só hão-de escutar a translúcida obscena voz da matemática, ain...

O papá

 Praia Grande            (Santiago, Cabo)                                     (Verde)      Naquela praia  A praia Grande,  Para mim enorme como enorme seu cheiro de  peixe e maresia a ventar em minhas pequenas narinas de criança  A criança que repousa o seu olhar sobre o papá,  O papá tão grande quanto a praia a perder de vista  O papá tão grande que parecia-me também ser ele o mar azul onde se banhava, o mar azul daquela tarde na praia grande.  Passeamos por baixo de umas vigas, com seu cheiro de ferrugem e o ranço do peixe podre E o papá lá estava forte como o mar, a não temer a ferrugem medonha das vigas ou o peixe podre que se colou a elas como uma doença e pôs-me sobre os seus ombros para que o sol ficasse mais perto e o peixe podre não se atrevesse a incomodar  De: Rosa Maria Levy Varela Benrós, que...

Usurpação

Há aqueles que nos roubam a alma por dela tirarem proveito mas nem sabem que alma temos.                      Escrevi tanta coisa que foi-me usurpada e nem sei quem dela hoje faz proveito Algumas delas até sei, porque foram textos escritos em papel...  Mas aqui no facebook gostaria de conhecer quem se serve do talento alheio para se dar bem. Por isso tantas vezes surgem ideias por aí que parecem nossas por termos a certeza que tambem pensamos igual.  Mas não interessa quem na verdade escreveu ou teve a ideia, porque as almas não são para conhecer mas apenas para serem vistas como numa passerele e sendo aprovadas na passerele tudo é licito quanto a poderem aproveitar-se de outras almas ainda que mais nobres ou mais inteligentes O meu desprendimento pregou-me a partida 

Véspera de Natal

 Daqui a nada é natal As antigas tradições das meias enfileiradas por baixo da lareira a aguardar o embrulho colorido, das filhoses feitas em casa, da árvore de natal, do cheiro a Pinheiro na sala, do peru embebedado na véspera, da casa cheia de gente, do bolo rei com brinde, dos programas de televisão cheios de monotonia por saberem que ninguém vê... Dos presentes distribuídos nas igrejas às crianças com cheiro a brinquedo novo, como os livros de leitura da escola primária. O actual natal diz-se mais humanizado, tem muita caridade exposta na televisão, tem muitas mensagens sobre a solidariedade e às vezes  solidariedade direta aos interessados que aguardam por uma fatia de bolo rei sem brinde, não vá alguém engasgar-se, na avidez de devorar a fatia, enquanto esperam impacientes para entrar em algum programa de televisão que vá preencher o ego dos animadores de programa que, finalmente, anunciam uma medida de solidariedade, há muito necessitada, a aguardar o natal para se faze...