Segredos

 Não guardei as horas de solidão. As horas de solidão revelam-se nos segredos contados, antes de se tornarem desertos frios e abandonados. Os segredos que despontam nos muros velhos dos bairros castiços de uma Lisboa imperturbável, nos seus caminhos de cidade antiga. Os muros velhos que se tornaram morada de plantas, de ervas daninhas. Sob elas raízes profundas que se entrelaçam na cumplicidade das risadas que ali se ouviam, em tempos de outros costumes. Passei por lá já fora de mão e só achei solidão, como os pássaros que vi à procura dos antigos moradores, de quando o bairro era mais castiço e novo. Hoje penso que os pássaros  ao vêr-me, como quem ali está sem propósito, procuram adivinhar meus segredos. Os pensamentos cheios de profundas raízes, sob plantas que crescem em velhos muros e se entrelaçam com a vida que foi e não será mais, na expectativa do que voltará a ser...  Os pássaros chegam,  olham para todos os lados como que à procura dos velhos hábitos, do tempo em que a vida saia à rua e não se trancava em casa. Não há ninguém para lá do velho muro e os pássaros depressa partem. E eu ali fiquei a vêr os pássaros  partirem e levarem os meus segredos...     Autoria : Rosa Maria

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