Manhãs

 Como eu quero acordar com o entusiasmo das manhãs. E ao mesmo tempo com o pudor. É o sol que ainda não é pleno, mas  deixa vestígios. É o som da chuva que, pela manhã, é sempre miudinha, cautelosa, envergonhada. As manhãs timidas e tambem plenas de energia, de límpidos pulmões, têm de permanecer um tempo no silêncio dos arbustos, no cheiro da terra que se revela no meio desses silêncios, nos pássaros que soltam a voz ainda cheios de reservas, como que a ensaiar a cantoria que se faz ouvir em plena manhã. O galo já cantou bem alto e o som do seu canto surge forte, pleno e solitário. Ainda outros sons não chegaram para abafar o seu som campesino que está atento aos primeiros raios timidos do sol. A natureza vai-se revelando por completo, no sol maduro e quente ou na chuva grossa e sonante. No cacarejar incessante das galinhas, no cantar desinibido dos pássaros, no riacho cristalino, dourado pelo sol e pela vida que o leva a correr sem parar, a dizer da sua pureza e frescura nos seus sons de principiante, que ainda não se juntou aos rios, à temeridade do mar. O mar carrega o doce riacho no seu estrondo salgado. E assim como o riacho corre iniciante e sem pressas e é pleno de vida, assim é a natureza quando amanhece, tão plena mas sem pressas. Tão timida, tão cheia de delicadas gotículas  de orvalho, tão cheia de silêncios, de sons indeléveis... É a madrugada que ensinou cautelas no desbravar do dia. No dia que se inicia há toda essa energia que surge de mansinho mas forte no cantar ousado do galo, no cheiro inconfundível da terra, no leve orvalho que se vai dissipando com o calor do sol. São coisas que só acontecem quando se iniciam as manhãs. Delicadas manhãs que   guardam inicialmente toda a sua exuberância, que se vai revelando.          Como eu quero acordar como a natureza, cheia de entusiasmo e também de pudor. O pudor que dá espaço a cada um, a cada coisa. Que dá-me espaço para saber qual o meu espaço e para não invadir outros espaços nem deixar que invadam o meu. 

Rosa Maria Levy Varela Benrós 

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