Obsequio

 No tempo em que o obséquio era levado a sério, as ruas da capital deste nosso Portugal faziam do fino trato algo que não se deve ostentar devido a um imenso pudor. A começar pela palavra obséquio, tão invulgar palavra faz adivinhar todo o seu pudor, que não se vulgariza num descarado e simples por favor! Obsequio é mais por gentileza. Obsequiava-se no quotidiano, sem ostentação. No tempo do obséquio nas ruas perpendiculares às ruas principais de Lisboa, mais discretas, sem o burburinho que gera o grande comércio, a vida acontecia em toda a sua plenitude   Nessas ruas havia uma padaria, uma mercearia, uma drogaria, uma igrejinha e ainda umas escadinhas de pedra tosca e irregular. Os padeiros, por obséquio, não faziam alarde do seu cansaço no preparo do pão durante as madrugadas, pois logo pela manhã abriam as portas com um sorriso franco no rosto e a tagarelice ingénua nos lábios e na alma, quando as calçadas ainda cheiravam a lavado, borrifadas pela humidade da noite ou pelos lavadores de rua ou pelas limpezas matinais das porteiras ou das donas de casa que obsequiavam assim as suas ruas. O estabelecimento era pequeno e o pão obsequiava-nos com seu cheiro matinal a ofertar a manteiga e o elegante  e apreciado galão. Na padaria ainda havia arrufadas e bolas de berlim. Por deferência com a profissão, por brio natural e por brio profissional,  as padarias não eram entupidas de bolos, a pôr desmazelo no pão e a disvirtuar o lugar. Hoje, longe do zelo vigilante das padarias o pão é feito a toda a hora, sem qualquer arte ou preparo, com bandejas sempre a circular despudoradamente pelo espaço de venda, com cheiro a pão instantâneo. A igrejinha cheirava a cera pela manhã e o altar era sóbrio e imaculado. Por trás desse altar bem cuidado, a igreja era toda dourada e cheia de imagens. No tempo do obséquio as igrejas não tinham o desconforto das paredes despidas e expostas, com o olhar indiscreto sobre as almas impreparadas pelo pudor, para o encontro virginal e puro com o altíssimo. Paredes despidas da sumptuosidade habitual das igrejas e vestidas de enorme arrogância, por não respeitarem a simplicidade das almas que entendem melhor a doutrina venerando os santos do que a ouvir grandes considerações filosoficas sobre santos de barro. Para as almas simples esses discursos hipócritas, cheios de erudição, não lhes dão o conforto do santo da sua devoção. Eruditos que não entendem a importância das tradições e também não sabem que não se pode dar um pontapé em tudo que foi ensinado e aprendido com tanto afeto. E o povo que deu vida e alma aos ensinamentos que fora sujeito, é ignorado na reviravolta dos costumes. Em Lisboa há escadarias de pedra tosca e irregular, em ruas estreitas, onde as pessoas, outrora, conversavam ao se cruzarem, quase num abraço, nesse corredor familiar onde o vai vem constante deixava as pedras toscas e irregulares ainda mais toscas e irregulares. Contudo ninguém estatelava-se no chão pois os corredores dessas escadarias familiares eram a continuidade do espaço que faltava lá por casa. Os idosos debruçados nas janelas viviam vigilantes e saudosos das suas aldeias com ruas e calçadas semelhantes, com histórias idênticas do vai vem quotidiano. Por pudor e força interior, as pessoas não gostavam de falar das suas misérias já expostas o suficiente pela vida que tinham. Falava-se da vida dos outros mas como ninguém contava as suas misérias diárias, encontravam coisas para dizer naquilo que era impossível esconder e toda a gente já estava farta de saber, era só acrescentarem novos detalhes. No tempo do obséquio as escolas públicas, primárias, universidades e liceus, tinham edifícios que, por deferência, homenageavam o ensino. O ensino não era ministrado em barracões como nos países sem infraestruturas, onde tudo é feito com caráter de urgência e com a esperança de ser provisório. Lisboa era bairrista, feita de pateos, praças e feiras coloridas e tanques públicos para lavar a roupa. Em locais onde a roupa abria os braços ao sol, o sabão não se envergonhava do seu perfume a lavado e as lavadeiras podiam tagarelar à vontade porque eram poucos os elementos à volta que participavam dos seus segredos, que ficavam colados nos muros, nas árvores e perdidos nos estendais com a roupa a esvoaçar. Às vezes algum passarinho lá estava com a cabeça sempre de um lado para o outro como que a procurar entender. Por fim, na falta de entendimento daquela estranha e extravagante sonoridade, partia. Mas também existia a Lisboa elegante e rica, com casas espaçosas, bem arquitetadas, com nomes de rua pomposos, pejadas de árvores a exibir uma primavera infantil, de pequenos passarinhos cantantes e flores humildes, a esconder uma primavera mais pujante, que escancara toda a sua exuberância e maturidade. As pessoas humildes saiam das suas aldeias e vilas à procura de uma  vida melhor em Lisboa. Essa vida melhor nem sempre acontecia, pelo menos do tamanho da expetativa que se punha. Outra coisa que não acontecia, não por interesse pelo bem estar das populações ou por se tratar de uma sociedade consciente e  evoluída, o desrespeito pelas almas simples. Podia-se até maltratar o corpo e era maltratado. Mas as almas pertenciam a Deus. Não era de fino trato corromper as almas. Assim as almas não ficavam à deriva, perdidas. A saudade ficava mais fácil e misturava-se a saudade de lá com a vivência de cá. Habituados à saudade e por causa dela, essa Lisboa ainda existe em suas festas, tradições, santos populares e bairros castiços, típicos de Lisboa. As lavadeiras já não existem mas ainda no muro e nas árvores moram as suas conversas e gargalhadas, por isso os muros recusam-se a cair apesar da evidente velhice e as árvores criaram fundas raízes. Os estendais com roupa perderam a liberdade, agora vivem em estreitas varandas e a roupa perdeu a alegria de esvoaçar. E os passarinhos ainda continuam por lá atrás das gargalhadas e das conversas. Olham com ar inquisidor de um lado para o outro e partem, deixando para trás os silêncios e o vazio em forma de bolor e ervas daninhas, nas paredes velhas. Em Lisboa houve fome, miséria, bairros de lata. Por isso uma casinha por humilde que fosse tornava-se um santuário a preservar. Pão e vinho sobre a mesa e uma alma para obsequiar. Agora em dias de festa há romaria e vão provar do sagrado dessas vivências simples, cheias de ingénua religiosidade.Tudo foi guardado no sacrário das vivências familiares. As mesmas mesas, as mesmas cadeiras, o mesmo cardápio, as mesmas toalhas tiradas do baú das preciosidades e da naftalina. As mesmas canecas, os mesmos jarros de barro. Como relíquias de Santo para obsequiar como se deve, como no tempo da reverência, a multidão expectante. Ficaram colados aqueles lugares, a retidão, o trabalho, o sofrimento silenciado e suportado, as devoções aos santos, aos filhos, aos maridos, às esposas, aos amigos, às suas humildes casinhas e às ambições e esperanças de uma vida melhor para os filhos, lembrados nas orações pelas suas mães, com seus pedidos aos santos para que intercedam por eles, por obséquio.              Autoria: Rosa Maria

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