Respeito
Tenho em mim a lembrança da escola. Não comecei por respeitar professores e colegas, sem antes passar por todo um ritual mais abrangente, de entrega a este novo estatuto de estudante. A primeira lição, o respeito. O respeito pela escola, pelo seu saber, pelos professores, colegas, funcionários. Ao entrar havia o pesado portão, mas nada de sombrio havia nele. Era um portão antigo, severo, pintado de verde, com marcas do tempo, porém sem qualquer desleixo. Por ele haviam entrado gerações com a sua timidez inicial, o respeito pelo seu aspecto imponente, a sentir aquele desconforto na barriga. Por ele entraram livros a perfumar espaços, entraram esses guardiões da sabedoria, muito cientes do seu papel e cheios de expectativas, projectadas nos alunos, que também entravam expectantes, quanto ao conteúdo dos livros e quanto aos professores. Entraram burocratas de um funcionalismo público, muitas vezes obsoleto. Entraram contínuas fardadas a rigor, entrou a figura do director, a condizer na medida necessária com o rigor das paredes. Um rigor que agora há somente nessas paredes antigas. Transposto o portão, encontravam-se algumas árvores altas e folhas caídas a almofadar o chão, a lembrar uma primavera que se foi e um outono que chega, a suavizar caminhos e a escolher destinos mais introspectivos. Uma estátua de bronze, bandeira hasteada da língua materna e hino de louvor a ela. Vi na estátua a lição que iria aprender, o livro que iria lêr e depois, talvez, quem sabe, poder também criar. Olhei de novo para a estátua, um pouco a medo daquela figura tão ancestral. Adivinhei-lhe os passos do saber, ao indicar-me a porta, logo ali atrás da sua figura de bronze, um busto de linhas austeras, sem qualquer sinal de rudeza. Transpus a porta, que impunha-se pela solenidade do edifício que a sustentava. Transposto os sérios caminhos das expectativas, embrenhei-me ainda mais naquele espaço onde o cheiro a livros e papéis criara um sentimento de sabor pela aprendizagem. Ele, o Sr. Respeito, foi a primeira lição aprendida e apreendida, e, em respeito ao meu embaraço de primeiro dia, silenciou-se e deixou-me falar... Autoria: Rosa Maria Levy Varela Benrós
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