Solidão
Há duas espécies de pessoas actualmente, as que vivem mergulhadas na solidão e as que vivem permanentemente a fugir da solidão. Tanto umas como as outras estão rodeadas de gente, embora em diferentes interacções. Um terceiro grupo se aproxima da solução. Regressar ao modo de vida de um tempo em que ninguém vivia o dilema. O tempo de vida plena nas aldeias e nos bairros típicos citadinos. Vida esforçada, sem dinheiro, sem meios, de andar descalço, passar fome, rachar lenha, buscar a água à fonte. No tempo em que o meio urbano acontecia nos bairros, pobres, dentro de espaços exíguos, refúgio no alcool para todas as mágoas, repressão social, repressão famíliar, repressão laboral, falta de oportunidades. Mas não havia solidão. Nos campos que trabalhava-se lado a lado, todos se conheciam. Os homens, depois do trabalho, encontravam-se para beberem, rirem de coisas sórdidas e ao mesmo tempo insignificantes, como não podia deixar de ser, porque eram as coisas sórdidas que ditavam os acontecimentos. Coisas sórdidas que incluiam histórias que envolviam mulheres, rivalidades. As mulheres, os homens, as crianças, falavam com as pessoas que conheciam lá da aldeia, que cumprimentavam pelo caminho. Em uníssono, as galinhas lá do quintal, cacarejam permanentemente, ao lado umas da outras, a olhar para o chão à busca do natural e sadio alimento, a raspar e a ciscar a terra com devoção permanente, pelo lugar natural de ciscar, raspar, debicar. Com o sol a iluminar as penas de forma natural, sem pôr, necessariamente, toda a intensidade do seu brilho naqueles dias naturais. As crianças vivem o tempo todo a serem crianças. As crianças nunca estão sós, nunca experimentam as subtilezas enganadoras da solidão, têm sempre um amigo ao lado e num mundo de proibições campestres há sempre uma travessura a pedir gente travessa, a quebrar posturas monótonas. Quando estão sós, nos duros caminhos do trabalho familiar ou no longo caminho da aldeia para a escola, surge o amigo imaginário que mais não é do que o amigo de sempre, misturado aos sonhos pessoais. Os amigos e as travessuras estão tão presentes que o amigo imaginário não precisa ser um amigo inventado de raíz e absolutamente, com nuances de solidão e criatividade. A desafiar a criatividade de Deus. Nos meios urbanos, dos bairros, há rivalidades como havia de umas aldeias para as outras, com muitos sentimentos de raivas incontidas e espontâneas. A indiferença era uma coisa desconhecida!!! Nos meios urbanos, dos bairros, continuam as pobrezas, continuam as breves conversas com o vizinho, ao cruzarem-se, por um acaso, porém, previsível pela rotina dos dia, na rua, nos lugares de venda, de comércio, nas escadas do pequeno prédio, à janela, nas horas vagas. A cumprimentar quem passa, a bisbilhotar, a inventar para si as histórias imaginadas, tão reais como a pontinha de verdade por onde se começou a magicar, contudo, sem a boa magia, aquela que poderia abrandar os passos da ira e livrar da má língua. Para os homens continuam a existir os botecos onde se vai para beber e gesticular e falar com muito empenho de acontecimentos sórdidos, não os da verdadeira desgraça dos dias, porque essas eram omitidas por pudor e tornavam-se solidárias, porque eram as histórias de todos. Eram as histórias cabeludas que interessavam, à medida dos cabelos. A história cabeluda nunca seria mais cabeluda que os cabelos que se exibia, que os piolhos que se escondiam nos cabelos das crianças. E as testemunhas destas vidas estão presentes para sempre, foram fotografadas permanentemente pela interacção natural, constante e vinculada. Quando
se passa pelo outro que se conhece e se divide o interesse das galinhas pelos pequenos quintais. Quando se põe bolor nos pequenos prédios, pelo uso contínuo e pelas intempéries. Quando se marcam os bancos dos jardins pelo uso continuado, ou as árvores, pelo interesse com que se olha para elas e se vê nelas utilidades inocentes e inócuas, como gravar corações e nomes de namorados com um pequeno canivete de bolso. Como o gasto das calçadas, das ruas, das ladeiras, das escadarias por onde se caminhava em vez do andar apressado. Porque todos andavam a pé, sempre e a todas as horas sem pretensões a fazer maratonas ou exercícios, porque tudo tinha o ritmo natural das coisas que se faziam porque era assim e porque era necessário. Rejeitamos essa vida mas queremo-la com todas as suas marcantes de. pobreza saudosista. porque nessa vida lá atrás, a solidão não tinha lugar. E amamos esta, com os nossos descontentamentos feita de contentamentos, a dizer-nos que não há escapatória possível Amamos e rejeitamos, no monumental paradoxo que define a actualidade. Na vida lá atrás sopram ventos que se conjugam nas horas, nos lugares, nas estações do ano, num permanente diálogo, inaudível aos humanos ouvidos mas entendida no dinamismo daqueles tempos mais naturais. Hoje vivemos vendavais em tempos de brisa e brisa em tempos de vendavais, imprevisíveis porque não se avisam. Falta o diálogo das horas decisivas e a natural compreensão que vem dos que não sabiam o que era a solidão. E, pelo dinamismo de um constante diálogo com a vida, venceram todos os monólogos de miséria, dor e doença, mesmo continuando presentes nas suas vidas Hoje, nos corredores da solidão, com esses gastos monólogos já vencidos, vivemos derrotados e exaustos no nada que se faz tudo. Autoria : Rosa Maria (Rosa Levy)
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