Sou do fado, sou da morna

Sou do fado, sou da morna. Sou da longa estrada que se fez mar mas também do caminho de terra batida para lá chegar. Venho de longe como todos nós, só não tenho a pretensão de me fazer perto, a ignorar o longo passado que corre nas veias, as brincadeiras infantis no espaço aberto e largo das ruas, de todas as ruas, de todos os lugares. Por onde passamos trepamos as árvores para colher as mangas maduras, as frutas e frutos dos novos lugares, apoderarmo-nos do gosto estrangeiro delas, sem mesmo pedir autorização. A guiar-nos, a descoberta de novas delicias, por pomares  nunca antes apetecidos. Alteramos o gosto desses novos paladares mesmo antes de os saborearmos, com a pressa que pomos em tudo, talvez porque um dia de nós tiveram pressa. Um longo caminho percorrido para provar do fruto desconhecido e o certificado que diz desvalidas. A ciência apressou-se e não deu espaço que se saboreasse os novos frutos das árvores trepadas, em todas as ruas, cheias do sabor a liberdade  e novidade. Sou do fado, sou da morna mas também sou da valsa e sou do tango e de outras danças por inventar, que têem na sua génese o que já foi. Tenho todas estas condições porque tudo está em mim e eu estou em tudo. Este hábito de estar em todos e todos em mim já é muito antigo, como confirma a história. E quando provar a manga da árvore e reconhecer o seu sabor, antes de todos os certificados, saberei que, essencialmente, sou humana e igual à árvore na essência. Sou a que já provou todas as frutas e frutos, de todas as árvores, de todos os lugares, antes mesmo de tê-las provado, que sabe de cor o seu cheiro e sabor e que sabe e sempre soube quais os certificados verdadeiros. Porque os certificados verdadeiros são os que não necessitam de certificado, carimbos e lacres, embalagens, caixa postal e novas invenções e descobertas sem mar nem marinheiros, sem bússolas a orientar. Certificados novos para coisas antigas, ainda que desconhecidas. A desnortear com devaneios para melhor solidificar os nossos anseios...  Certificamos o mundo segundo critérios que se arrastam connosco teimosamente desde as aventuras contadas resumidamente nos compêndios de história ou na religiosidade que restou e trouxemos até aqui. Histórias de vencidos e vencedores, tão antiga que tantas e tantas vezes fomos vencidos e outras tantas vencedores e outras ainda uma mescla de tudo que trespassou os nossos corpos rendidos, muito mais do que vencidos. Vencidos ficamos quando essas conquistas perdidas no tempo se fazem presente nas mentes e levam a pensar  que  conquistamos até o direito de tudo certificar e lacrar. A verdade é que a fome  dá bom paladar a tudo e a fartura, pelo contrário, não tem paladar. E isto é a ciência das papilas gustativas e não o eterno lirismo das nossas conquistas, quando encomendam um novo hino que enalteça o já por si enaltecido.                                                                                                  Rosa Maria

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