As almas
O pó das almas vem depois da morte. Primeiro a morte física e irrepetível. Na casa abandonada entra, inevitavelmente, pó. O corpo largado ao acaso, aberto ao pó publico e sujo. O pó do abandono. Entregue à terra bichenta, entregue ao fogo cruel, entregue à água sufocante. Pó, lixo que é varrido. Como é possível dizer-se que o que conta é a alma e não o corpo! Os banhos que tomamos dizem que não! Damos banho aos corpos e abandonamos as almas. Perfumamos os corpos e viramos as costas às almas. Andamos seduzidos pelos corpos e ansiosos pelo toque mágico e prazeroso de um corpo. As almas incomodam. Quando sentimos a presença delas arranjamos uma benzedeira para que desapareçam. Que voltem à casa poeirenta de onde saíram. Não gostamos que nos façam companhia. Dizemos que queremos que encontrem a luz para não mais incomodarem. Quando estão junto a Deus não incomodam. Dá-se um banho de água benta para limpar. E manda-se de novo para o pó terreno ou cósmico. Lixo, inevitavelmente pó. Os antigos diziam que veneravam a alma. Mas não! Veneravam de tal modo o corpo que continuavam a alimenta-lo depois que desaparecia ou tentavam que permanecesse na forma de uma múmia. As almas tinham de partir. Nem que fosse para serem eternamente castigadas. As almas não cabem neste mundo, dizemos nós. Enviamo-las para um mundo que desconhecemos, que nos é vedado. Não queremos que fiquem, que incomodem. As almas são pó. E quando as amamos muito, com loucura, conservamos o pó. O pó nas mobílias, nas fotos, nas roupas. E causamos terror aos demais, que, preocupados, rezam, convencem-nos a ir a um psicólogo ou psiquiatra. As almas são pó. E mesmo os mais crentes deveriam ter isso em consideração. Digamos que o espírito prossegue, por ser livre e criativo. Mas a alma sempre viveu a paredes meias com o corpo, dando-lhe a força anímica. E quando o corpo vai-se fica a alma em forma de pó. E como todo o pó é nocivo, torna-se intolerável. Rosa Maria Levy Varela Benrós
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