Véspera de Natal
Daqui a nada é natal
As antigas tradições das meias enfileiradas por baixo da lareira a aguardar o embrulho colorido, das filhoses feitas em casa, da árvore de natal, do cheiro a Pinheiro na sala, do peru embebedado na véspera, da casa cheia de gente, do bolo rei com brinde, dos programas de televisão cheios de monotonia por saberem que ninguém vê... Dos presentes distribuídos nas igrejas às crianças com cheiro a brinquedo novo, como os livros de leitura da escola primária. O actual natal diz-se mais humanizado, tem muita caridade exposta na televisão, tem muitas mensagens sobre a solidariedade e às vezes solidariedade direta aos interessados que aguardam por uma fatia de bolo rei sem brinde, não vá alguém engasgar-se, na avidez de devorar a fatia, enquanto esperam impacientes para entrar em algum programa de televisão que vá preencher o ego dos animadores de programa que, finalmente, anunciam uma medida de solidariedade, há muito necessitada, a aguardar o natal para se fazer mais necessária e combinar com a teatralidade natalícia. As lojas apinhadas de gente que, consecutivamente, ano após ano, ficam a abarrotar na véspera de natal, dia 24, num frenesim louco, a apanhar o peru embalado, as filhoses de fabrico, as peúgas e as botas no montante das prendas, as bolas coloridas, tudo no mesmo espaço comercial, no mesmo carrinho exíguo, a arrumar a lixívia em cima do peru. Ainda assim, sobra um muito pequeno espaço para o livro da moda para aquele amigo que já estava na prateleira dos esquecidos. E, sendo um livro para encher uma qualquer prateleira, presentes de última hora, levará no embrulho o papel igual dos presentes iguais, como os que são ofertados nas igrejas às crianças.
Em tempos das tradições de natal, vagorosas, sem pressas, na expectativa da família que já se faz chegar, nos longos e demorados preparativos nas casas e nas igrejas, os sinos fazem-se ouvir, nas igrejas que ficam cheias de gente com suas roupas impecaveis, seus cabelos arranjados em casa, o aspeto muito limpo das crianças, um sorriso franco e leve nos rostos apesar de tantas tarefas caseiras. Igrejas austeras que oferecem paredes com arte, com santos e anjos cheios de candura, com as gentes a olhar embevecidos. Unico momento em que aquelas gentes se encontram profundamente com a arte, com o êxtase que causam às almas, porque têm os cheiros de natal à mistura. É um encontro das sensações da alma, do espírito, com as sensações dos sentidos e a simplicidade a pôr honestidade na felicidade e alegria nas almas. Os natais de hoje, Começam com muita gente, nos mercados super, onde tudo se vende, até a alegria na preparação das filhoses que já estão ali prontas naquele espaço onde tudo se vende em papel celofane, até as couves de natal que se misturam com livros e botas, no mesmo exíguo carrinho de compras. Na magia do natal até o papel celofane tem o seu lugar nos brinquedos de natal. Brinquedos oferecidos pelas igrejas ou outras instituições, desembrulhado o papel transparente e colorido logo nova surpresa se segue, dada novamente pelos sentidos, o cheiro a brinquedo novo que fazia esquecer a insignificância material da prenda. Mas papel celofane nas couves!!! é uma triste visão que logo antevê pobre paladar, logo a abafar o aroma natural da terra onde foram semeadas e apanhadas para serem vendidas como couves e não como objetos fabris. Espera-nos um natal sem cheiros, sem tradições, o natal que começa com um frenesim no meio da multidão anónima, em lugares fugazes e termina na solidão do cansaço, do dever cumprido, do consumismo, dos gastos para impressionar, no perfeccionismo das palavras e atitudes, no desgaste disto tudo e no paradoxo que é o vazio que dá tanta coisa. É que são coisas de supermercado, de prateleiras sectarizadas, das coisas que se apanham num simples relance do olhar, das coisas que não se projectam, não se humanizam no olhar que aprecia, que se desvia para os que estão à volta e dão opinião porque é importante. De: Rosa Maria Levy Varela Benrós
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