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Entorpecimento

É necessário um certo entorpecimento. O mundo é demasiado cruel. Comemos uns aos outros, estamos sujeitos a muitos perigos em tudo que fazemos. Vivemos condenados à morte, mas a ilusão salva-nos de uma vida amargurada, a ilusão de que a morte ainda vem longe, a ilusão de que o mal não nos atinge, só acontece aos desconhecidos. E não temos total consciência do sofrimento dos animais e das plantas quando deles nos alimentamos. Nosso entorpecimento é relativo a muitas outras coisas. De qualquer maneira o ser humano é o ser menos entorpecido por ser o mais consciente, é o preço da sua imensa capacidade de atuar sobre a realidade e transforma-la em seu favor. Cada vez mais capacitado pela imensa quantidade de sábios, cientistas, artistas, benfeitores espirituais, que povoam a humanidade com sua sabedoria, santidade, sensibilidade, talento, conhecimento. Desvendando mistérios, indicando caminhos, despertando sensibilidades, dando esperança, qualidade de vida, realizando sonhos e construindo ...

Infinito

Infinito antes das aguas formadas em nascentes      Depois do mar remanescente                          Infinito antes de Adão,  Infinito depois de Eva lapidada por seu desejo finito, de contornos precisos, limitados por lados, formas                          Infinito antes de Dalila a moldar Sansão no seu querer finito                            Infinito a contrariar todas as finitas vontades de finalizar                        Infinito na ideia de  permanecer sem finalizar um                         Infinito o universo na inconcebivel forma de lhe atribuir um finito que, inevitavelmente é uma porta para o infinito que está depois da forma qu...

As almas

 O pó das almas vem depois da morte. Primeiro a morte física e irrepetível. Na casa abandonada entra, inevitavelmente, pó. O corpo largado ao acaso, aberto ao pó publico e sujo. O pó do abandono. Entregue à terra bichenta, entregue ao fogo cruel, entregue à água sufocante. Pó, lixo que é varrido. Como é possível dizer-se que o que conta é a alma e não o corpo! Os banhos que tomamos dizem que não! Damos banho aos corpos e abandonamos as almas. Perfumamos os corpos e viramos as costas às almas. Andamos seduzidos pelos corpos e ansiosos pelo toque mágico e prazeroso de um corpo. As almas incomodam. Quando sentimos a presença delas arranjamos uma benzedeira para que desapareçam. Que voltem à casa poeirenta de onde saíram. Não gostamos que nos façam companhia. Dizemos que queremos que encontrem a luz para não mais incomodarem. Quando estão junto a Deus não incomodam. Dá-se um banho de água benta para limpar. E manda-se de novo para o pó terreno ou cósmico. Lixo, inevitavelmente pó. Os a...

Aquem marte

 A viagem já foi além  Marte e foi também aquém marte. Aquém Marte em Vénus a queimar. O calor infernal da Deusa, beleza forjada em ardente fornalha. Além Marte a desembarcar longe da estrela que nos rege, que da via láctea se fez rei, coroa dourada e ceptro fornalha, em seu corpo brilhante de luz, amarelo, dourado, vermelho sangue. Longe da via única que nos conduz, mas não a única que nos seduz, Marte ficou para trás como velho amigo, mas nunca de sua intimidade soubemos e de Vénus só o que inventamos em delírios de deuses e deusas da  perfeição, à nossa régia medida. Vénus permaneceu Deusa, inacessível,  longínqua e temerária. Queremos desvendar outra via, diferente desta que mal conhecemos, que de fugida a ela nos apresentamos. Outra via, outras elipses, outros Sois, outros planetas e outras leis,  universais, unas, contínuas, surdas e mudas aos nossos vãos apelos porque, como aqui na via láctea, só hão-de escutar a translúcida obscena voz da matemática, ain...

O papá

 Praia Grande            (Santiago, Cabo)                                     (Verde)      Naquela praia  A praia Grande,  Para mim enorme como enorme seu cheiro de  peixe e maresia a ventar em minhas pequenas narinas de criança  A criança que repousa o seu olhar sobre o papá,  O papá tão grande quanto a praia a perder de vista  O papá tão grande que parecia-me também ser ele o mar azul onde se banhava, o mar azul daquela tarde na praia grande.  Passeamos por baixo de umas vigas, com seu cheiro de ferrugem e o ranço do peixe podre E o papá lá estava forte como o mar, a não temer a ferrugem medonha das vigas ou o peixe podre que se colou a elas como uma doença e pôs-me sobre os seus ombros para que o sol ficasse mais perto e o peixe podre não se atrevesse a incomodar  De: Rosa Maria Levy Varela Benrós, que...

Usurpação

Há aqueles que nos roubam a alma por dela tirarem proveito mas nem sabem que alma temos.                      Escrevi tanta coisa que foi-me usurpada e nem sei quem dela hoje faz proveito Algumas delas até sei, porque foram textos escritos em papel...  Mas aqui no facebook gostaria de conhecer quem se serve do talento alheio para se dar bem. Por isso tantas vezes surgem ideias por aí que parecem nossas por termos a certeza que tambem pensamos igual.  Mas não interessa quem na verdade escreveu ou teve a ideia, porque as almas não são para conhecer mas apenas para serem vistas como numa passerele e sendo aprovadas na passerele tudo é licito quanto a poderem aproveitar-se de outras almas ainda que mais nobres ou mais inteligentes O meu desprendimento pregou-me a partida 

Véspera de Natal

 Daqui a nada é natal As antigas tradições das meias enfileiradas por baixo da lareira a aguardar o embrulho colorido, das filhoses feitas em casa, da árvore de natal, do cheiro a Pinheiro na sala, do peru embebedado na véspera, da casa cheia de gente, do bolo rei com brinde, dos programas de televisão cheios de monotonia por saberem que ninguém vê... Dos presentes distribuídos nas igrejas às crianças com cheiro a brinquedo novo, como os livros de leitura da escola primária. O actual natal diz-se mais humanizado, tem muita caridade exposta na televisão, tem muitas mensagens sobre a solidariedade e às vezes  solidariedade direta aos interessados que aguardam por uma fatia de bolo rei sem brinde, não vá alguém engasgar-se, na avidez de devorar a fatia, enquanto esperam impacientes para entrar em algum programa de televisão que vá preencher o ego dos animadores de programa que, finalmente, anunciam uma medida de solidariedade, há muito necessitada, a aguardar o natal para se faze...

Sou do fado, sou da morna

Sou do fado, sou da morna. Sou da longa estrada que se fez mar mas também do caminho de terra batida para lá chegar. Venho de longe como todos nós, só não tenho a pretensão de me fazer perto, a ignorar o longo passado que corre nas veias, as brincadeiras infantis no espaço aberto e largo das ruas, de todas as ruas, de todos os lugares. Por onde passamos trepamos as árvores para colher as mangas maduras, as frutas e frutos dos novos lugares, apoderarmo-nos do gosto estrangeiro delas, sem mesmo pedir autorização. A guiar-nos, a descoberta de novas delicias, por pomares  nunca antes apetecidos. Alteramos o gosto desses novos paladares mesmo antes de os saborearmos, com a pressa que pomos em tudo, talvez porque um dia de nós tiveram pressa. Um longo caminho percorrido para provar do fruto desconhecido e o certificado que diz desvalidas. A ciência apressou-se e não deu espaço que se saboreasse os novos frutos das árvores trepadas, em todas as ruas, cheias do sabor a liberdade  e no...

Manhãs

 Como eu quero acordar com o entusiasmo das manhãs. E ao mesmo tempo com o pudor. É o sol que ainda não é pleno, mas  deixa vestígios. É o som da chuva que, pela manhã, é sempre miudinha, cautelosa, envergonhada. As manhãs timidas e tambem plenas de energia, de límpidos pulmões, têm de permanecer um tempo no silêncio dos arbustos, no cheiro da terra que se revela no meio desses silêncios, nos pássaros que soltam a voz ainda cheios de reservas, como que a ensaiar a cantoria que se faz ouvir em plena manhã. O galo já cantou bem alto e o som do seu canto surge forte, pleno e solitário. Ainda outros sons não chegaram para abafar o seu som campesino que está atento aos primeiros raios timidos do sol. A natureza vai-se revelando por completo, no sol maduro e quente ou na chuva grossa e sonante. No cacarejar incessante das galinhas, no cantar desinibido dos pássaros, no riacho cristalino, dourado pelo sol e pela vida que o leva a correr sem parar, a dizer da sua pureza e frescura nos...

Pilula

A pílula deu sexo sem bebé e inseminação artificial deu bebé sem sexo. Já passou o sexo livre e agora é o bebé de qualquer jeito, porque a pílula deixou a mulher estéril e o sexo livre deixou a mulher velha e sem vontade de ser mãe. Bem vindos ao grande mercado mundial das vontades, outrora o mercado das liberdades. Leve uma ninhada e pague um somente. Se quiser doar é a pagar. Tem cardápio para escolher a melhor carne. É sentar e esperar. Quem não tem paciência, quem não tem dinheiro engula uma pílula.          Autoria : Rosa Maria

Eden

 em frente à casa havia um jardim. Todos os jardins são de um eden que se revela na alma. Os jardins de dia produzem risos, crianças felizes, flores bem regadas, bem ordenadas, animais soltos e amigáveis entre si, muito sol, sim porque só se vai aos jardins em dias de sol. À noite os jardins reflectem sombras de um outro mundo, de um eden mais misterioso e sombrio, até ouvimos, se estivermos atentos à imaginação que emerge nessa escuridão folhosa, de árvores imponentes em seus grossos troncos, a voz Divina que passeia vigilante e rodeia os bancos, onde namorados se deliciam a quebrar vergonhas, escondidas entre as mil folhas carregadas da sombra nocturna que parece proteger os amantes dos olhares indiscretos e curiosos. O Divino passa também como uma sombra que protege, que abençoa, que perfuma a noite naquele lugar de perfumes naturais, que se soltam, que se entregam, que se Divinizam quando põem ternura na noite, um ar sereno que nos transporta para o Eden esquecido na bruma dos ...

Agua pura

 Queda de agua  em meu corpo,  Sinto a frescura em meu rosto e não penso  Sinto o sabor em meus labios e nao penso  Sinto o teu som cristalino e não penso  Olho-te a jorrar com a força da tua frescura, o desejo no teu sabor, a vida no som farto e puro e sou eu a pensar Sinto e penso como posso atravessar a espada no teu corpo que se entrega, se deixa atravessar sem resistir, sem se queixar, a continuar sempre a ser água que qualquer corpo pode atravessar, suave como a flor ou  rude como a espada...  A agua doce e cristalina guarda-se pura, transparente e cristalina para o seu encontro com o mar, cristalino, puro, salgado, profundo Rosa Maria Levy Varela Benrós  14-8-2023

Vagalume

Quando o dia é escuro e sem esperança  O vagalume traz-me as estrelas para perto de mim e o tornado da zanga fica proximo da  natureza que sofre   E como um passaro canto a dor em melodias de cor esperança  A esperança que traz-me o vagalume que é estrela guia em noite escura  De: Rosa Maria Levy Varela Benrós

Tudo é dúbio

 Tudo é dúbio quando o amor sobe as bainhas de todas as necessidades. Tudo é dúbio quando as faculdades moram num pedaço de pão que se repete a cada dia. Tudo é dúbio quando o eu necessário e absoluto se reflecte no espelho das vaidades vestidas de lua.        Autoria : Rosa Maria (Rosa Levy). 2020/21

A Paz que se deseja

 Que venha a paz em forma de paz, sem simbolos ou simbologia, sem estes artifícios ou outros enganos. Que a paz não seja enganosa, não seja comprada, não seja um vão desejo. Que a paz seja notícia por ser boa e não por ser rara, por ser amada e não coisa banalizada, sem interesse. Que a paz esteja em cada casa solenemente e em cada esquina com a mesma solenidade. Que a paz não seja apenas tréguas, feridas saradas, mágoas esquecidas.  Que o motivo principal para um acordo de paz, seja a paz.                            Rosa Maria

Terra amada

 Que hajam árvores enquanto eu respirar. Que haja mar enquanto eu viver. Se o espaço falhar e deixarem as estrelas de brilhar, que haja dia e a estrela sol no horizonte a despontar, a unica verdadeiramente necessaria e bela. Que haja noite com o seu luar. Não exijo um espaço imenso. Não exijo outro chão, outro planeta, outras estrelas. Quero esta felicidade imensa de ouvir um pássaro a cantar, o sabor da água do mar e o cheiro das árvores, do tronco, da terra molhada. Haja sol e mais nada. Se o resto é preciso!? Que seja! Mas que seja sem perturbar. Que durma o seu sono infinito. Mudo aqui, ainda que desperto lá a mover montanhas dentro de outros, com suas árvores ou não, com seus mares ou não. Com suas vidas longínquas e infinitas. O infinito é este finito de seres a pulular o universo infinitamente.  De: Rosa Maria Benrós 

Ar e mar

 Mar  Ar que para mim não existe  Mas persiste o meu querer  Porque mar é de outro fôlego, de outro lar  Espuma branca, meu corpo a libertar do ranço fetido das coisas secas, quentes, que respiro sem saber  Mar de outro ar, de outro estar  De um estar dinâmico sem o esforço da minha vontade, de frescura sem que eu peça essa ternura, de ar que é maresia, dia e sol, do ar que se distribui por homens e peixes em equilibrio e harmonia  Mar que é alma, entrega, parente, amigo  Mar que respiro sem respirar  Mar completo, para peixes e homens Para os homens a fantasia, a maresia, a frescura, a felicidade que cabe em um dia  Para os peixes o lar unico, refugio, batalha  De: Rosa Maria 

Planetas

 Os planetas são laboratorios para quimicos enlouquecidos, medicos empenhados, biologos esperançosos  Os planetas são vida para otimistas, paraiso para utopistas,  Os planetas são planetas para animais, homens comuns.  vida em abundância, silencios noturnos, farrapos de vida.  Fogo de vida e morte, marés vivas, águas paradas, nascentes que nascem sempre e sempre seguem até o seu destino final.   Planetas são corpos suspensos, com vidas em suspensão.  Ebulição e  quietude, fogo, larva e pedra. Suspensos os planetas, giram sem parar, para que o minuto final não seja o derradeiro, porque há um planeta que gira, ainda que pedra vazia  De: Rosa Maria  22-08-2023

Solidão

 Há duas espécies de pessoas actualmente, as que vivem mergulhadas na solidão e as que vivem permanentemente a fugir da solidão. Tanto umas como as outras estão rodeadas de gente, embora em diferentes interacções. Um terceiro grupo se aproxima da solução. Regressar ao modo de vida de um tempo em que ninguém vivia o dilema. O tempo de vida plena nas aldeias e nos bairros típicos citadinos. Vida esforçada, sem dinheiro, sem meios, de andar descalço, passar fome, rachar lenha, buscar a água à fonte. No tempo em que o meio urbano acontecia nos bairros, pobres, dentro de espaços exíguos, refúgio no alcool para todas as mágoas, repressão social, repressão famíliar, repressão laboral, falta de oportunidades. Mas não havia solidão. Nos campos que trabalhava-se lado a lado, todos se conheciam. Os homens, depois do trabalho,   encontravam-se para beberem, rirem de coisas sórdidas e ao mesmo tempo insignificantes, como não podia deixar de ser, porque eram as coisas sórdidas que dita...

Obsequio

 No tempo em que o obséquio era levado a sério, as ruas da capital deste nosso Portugal faziam do fino trato algo que não se deve ostentar devido a um imenso pudor. A começar pela palavra obséquio, tão invulgar palavra faz adivinhar todo o seu pudor, que não se vulgariza num descarado e simples por favor! Obsequio é mais por gentileza. Obsequiava-se no quotidiano, sem ostentação. No tempo do obséquio nas ruas perpendiculares às ruas principais de Lisboa, mais discretas, sem o burburinho que gera o grande comércio, a vida acontecia em toda a sua plenitude   Nessas ruas havia uma padaria, uma mercearia, uma drogaria, uma igrejinha e ainda umas escadinhas de pedra tosca e irregular. Os padeiros, por obséquio, não faziam alarde do seu cansaço no preparo do pão durante as madrugadas, pois logo pela manhã abriam as portas com um sorriso franco no rosto e a tagarelice ingénua nos lábios e na alma, quando as calçadas ainda cheiravam a lavado, borrifadas pela humidade da noite ou ...